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Linhares ganha sua rodoviária: promessas cumpridas ou política em obra?

Linhares ganha sua rodoviária: promessas cumpridas ou política em obra?
  • Publicadoagosto 28, 2025

Por Redação Conecta

Há gestos administrativos que dizem muito mais do que cifras ou metros quadrados. A confirmação da construção da nova rodoviária de Linhares, assinada em clima de festa pelo vice-governador Ricardo Ferraço e o prefeito Lucas Scaramussa, representa mais que uma obra física: é uma tentativa de resposta política a um anseio antigo da população linharense. Mas também nos obriga a questionar: até que ponto obras como essa se consolidam como instrumentos de transformação – e não apenas como vitrines de gestão?

Com investimento anunciado de R$ 14 milhões, divididos entre Estado e Município, a estrutura vai ocupar um espaço estratégico entre o Aeroporto e a Havan, numa clara aposta na articulação logística e no desenvolvimento da região. Estão previstos mais de 13 mil metros quadrados, com 11 plataformas, 130 vagas de estacionamento e espaço para transporte por aplicativo. Uma rodoviária de médio porte com ares de modernidade e promessa de atender até 300 mil passageiros por ano.

O timing da assinatura também não passou despercebido. A celebração dos 225 anos do município deu o tom simbólico ao evento, e o discurso de Ferraço reforçou a narrativa municipalista do atual governo: “Muitos prometeram, mas nós estamos tirando do imaginário”, disse, em uma frase que dialoga diretamente com o eleitor e cobra dos antecessores o que foi negligenciado.

No entanto, é importante refletir: uma rodoviária em 2025 tem o mesmo papel que tinha nos anos 1990? Com o avanço dos aplicativos de transporte, dos modais aéreos regionais e até do home office, o modelo tradicional de terminais de passageiros ainda é viável como motor de desenvolvimento urbano? Ou será que estamos diante de um projeto de prestígio mais simbólico do que funcional?

Não se trata de questionar a importância da obra, mas de ponderar sua projeção estratégica. Se a nova rodoviária estiver integrada de forma eficaz com o aeroporto, com o transporte urbano e com o plano de mobilidade do município, pode, de fato, ser um vetor de desenvolvimento logístico. Caso contrário, será mais um grande prédio bonito com pouca gente circulando, como já aconteceu em outras cidades capixabas e do interior do Brasil.

Também é preciso mencionar o impacto imediato na economia local. Com previsão de contratação de 200 trabalhadores durante a execução, o projeto se transforma em uma injeção de empregos e renda, ainda que temporários, algo vital em tempos de recuperação econômica. Mas a pergunta que permanece é: o que virá depois da entrega? Qual será o modelo de gestão dessa rodoviária? Haverá concessão? Subvenção pública? Manutenção eficiente?

Por fim, é preciso reconhecer o mérito de cumprir uma promessa antiga. Em um país em que obras públicas viram eternas placas de “em breve”, tirar um projeto do papel é, sim, motivo de comemoração. Mas comemorar não pode significar parar de questionar. Uma rodoviária nova deve servir, antes de tudo, ao futuro da cidade – e não apenas ao legado de uma gestão.

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Tudo é político

NEM isento, NEM imparcial A coluna nasce do princípio de que tudo é político. Essa afirmação, longe de ser um exagero, reflete uma constatação fundamental: as decisões que tomamos, as ações que escolhemos e até os silêncios que guardamos reverberam nas estruturas de poder que organizam a sociedade. Formar opinião, distribuir recursos, estabelecer regras e até questionar silêncios é fazer política. Por isso, NEM isento, NEM imparcial: porque se posicionar é uma escolha ética e uma responsabilidade jornalística. Com olhar atento sobre a política capixaba e brasileira, TUDO É POLÍTICO se propõe a ser um espaço de análise crítica, provocação e argumentação bem fundamentada, sem medo de tomar partido desde que seja sempre o partido da democracia, da justiça e da transformação social.

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