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Espírito Santo 2026: sucessão em marcha, tabuleiro exposto – PARTE 1

Espírito Santo 2026: sucessão em marcha, tabuleiro exposto – PARTE 1
  • Publicadosetembro 3, 2025

O desenho da sucessão de 2026 já está à mostra: pesquisas apontam favoritos, articulações aceleram e alianças começam a tomar forma. A variável que reorganiza o quebra-cabeça é simples e poderosa: com alta aprovação, Renato Casagrande (PSB) tende a mirar o Senado — e, com isso, remodela a disputa pelo Palácio Anchieta antes mesmo do início oficial da corrida. 

O legado que pesa (e o calcanhar que dói)

É justo reconhecer: a segunda passagem de Casagrande foi assertiva, especialmente na segurança pública, com queda histórica de homicídios e arrefecimento, ainda que tímido, dos crimes patrimoniais. Mas há um ponto que insiste em atravessar a pauta: a violência contra as mulheres permanece em patamar vergonhoso. Houve iniciativas recentes — mérito registrado —, porém os números ainda não espelham mudança robusta. Se o campo da continuidade quiser narrar “mais quatro anos do que funciona”, terá de entregar metas, cronograma e governança específicos para esse tema. Caso contrário, abre-se o flanco perfeito para um adversário que saiba traduzir segurança em simbolismo e política pública. 

A cicatriz de 2010, a fila e o “fogo amigo”

A memória recente ensina prudência. Em 2010, Paulo Hartung (PSD) reescreveu a sucessão às vésperas do pleito: não renunciou, bancou Casagrande ao governo e deslocou Ricardo Ferraço ao Senado. O próprio Ferraço batizou aquele abalo de “Abril Sangrento” e registrou a ferro: “Fui consumido pelo fogo amigo”. Resultado: Casagrande no Anchieta e Ferraço no Senado. O episódio explica dois movimentos atuais: Ferraço voltou à “cabeça da fila” em 2022 e, agora, vigia cada passo para não ser preterido outra vez — e o gesto de Casagrande será lido com microscópio. 

Dois polos, uma disputa

Por ora, o tabuleiro estrutura-se em torno de dois nomes. Lorenzo Pazolini (Republicanos) capitaliza a vitrine da Prefeitura de Vitória, sustenta um discurso de lei e ordem e ocupa, com nitidez, o campo de direita gerencial. Em diferentes cenários testados por institutos, aparece na frente, com Ricardo Ferraço (MDB) logo atrás — este, por sua vez, representa a continuidade com musculatura: experiência, lastro no Senado e apoios na máquina estadual e em prefeituras-chave. É uma colisão de narrativas simples de explicar ao eleitorado: “resultado e contraste” versus “estabilidade e continuidade testada”. 

As peças que mexem no detalhe

Há movimentos laterais que podem decidir a foto final. Arnaldinho Borgo (sem partido), recém-saído do Podemos, mantém-se como coringa: vice competitivo em chapa forte — ou, se as placas se moverem, nome ao Senado. Sergio Vidigal (PDT) conserva recall no maior colégio do estado; seu retorno à medicina e a passagem relâmpago pelo governo, porém, o deixam menos disponível para cabeça de chapa. Helder Salomão (PT) tende a consolidar o eleitorado progressista. Da Vitória (UP) e Euclério Sampaio (MDB) aparecem nas pesquisas e na engenharia das alianças, mas, hoje, são peças mais propensas à composição do que à cabeça de chapa — com Da Vitória flertando com o Senado e Euclério inclinado a concluir o mandato em Cariacica. 

Palanques e estrutura partidária

No plano partidário, o PT deve apresentar candidatura própria para garantir palanque a Lula, enquanto Fabiano Contarato aparece como favorito à reeleição ao Senado — combinação pragmática para manter cadeira e irradiar a campanha federal no estado. O PSOL, por sua vez, não posicionou um nome competitivo ao governo ou ao Senado; Camilla Valadão segue como a liderança mais visível e, salvo ruptura, a rota racional é a reeleição. Esses vetores não escolhem, sozinhos, o próximo governador — mas influenciam TV, militância e ânimo de coalizão. 

Três variáveis que podem virar o jogo

  1. A régua da segurança. Quanto mais a campanha for aferida pela segurança pública, maior a tendência de Pazolini se beneficiar — a menos que a base governista transforme o “ponto cego” da violência contra a mulher em plano concreto, com metas e monitoramento público. 
  2. A mão de Casagrande. O governador é o maior cabo eleitoral da própria sucessão. Apoio claro, sem sufocar a autonomia do candidato, tende a potencializar Ferraço. Ambiguidade, por outro lado, reacende fantasmas de 2010 e reabre a avenida para o adversário. 
  3. A engenharia das alianças. Vice, arranjos regionais e a maré nacional — especialmente a configuração do palanque presidencial — podem deslocar pontos percentuais decisivos na reta final. 

Minha leitura — sem isenção e sem rodeios

Se o governo apresentar solução convincente e mensurável para a violência contra a mulher e Casagrande entrar em campo com métodoFerraço é, hoje, o favorito natural. Falhar em qualquer um desses dois eixos abre um corredor para Pazolini, cuja proposta tem alto contraste e comunicação direta. Em eleições capixabas, decide-se no detalhe, não no terremoto; o dia seguinte — quem governa, com quem e para quê — será a pergunta que definirá o voto. Quem cala consente; eu não calo: a sucessão tem dono — resultado com rumo — e, por ora, a continuidade reúne ambos. Precisa apenas prová-lo onde mais dói. 


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Tudo é político

NEM isento, NEM imparcial A coluna nasce do princípio de que tudo é político. Essa afirmação, longe de ser um exagero, reflete uma constatação fundamental: as decisões que tomamos, as ações que escolhemos e até os silêncios que guardamos reverberam nas estruturas de poder que organizam a sociedade. Formar opinião, distribuir recursos, estabelecer regras e até questionar silêncios é fazer política. Por isso, NEM isento, NEM imparcial: porque se posicionar é uma escolha ética e uma responsabilidade jornalística. Com olhar atento sobre a política capixaba e brasileira, TUDO É POLÍTICO se propõe a ser um espaço de análise crítica, provocação e argumentação bem fundamentada, sem medo de tomar partido desde que seja sempre o partido da democracia, da justiça e da transformação social.

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