Após 121 dias de impasse, suplentes assumem cadeiras na Câmara da Serra em meio a crise institucional
Substituições ocorrem após longa disputa judicial que expôs as fragilidades do Legislativo municipal e gerou vácuo de representação
Por mais de quatro meses, a Câmara Municipal da Serra — maior colégio eleitoral do Espírito Santo — operou com um déficit de representação. Quatro cadeiras permaneceram vazias desde 23 de setembro de 2025, quando a Justiça determinou o afastamento imediato de vereadores investigados por corrupção. Agora, após 121 dias de imbróglio jurídico e institucional, os suplentes Marcelo Leal (MDB), Dr. Thiago Peixoto (PSOL), Wilian da Elétrica (PDT) e Sérgio Peixoto (PDT) tomarão posse no próximo 2 de fevereiro, na reabertura dos trabalhos legislativos.
A recomposição ocorre não por iniciativa política, mas por esgotamento dos próprios argumentos usados para protelar as convocações. A tese sustentada pela Mesa Diretora da Câmara — de que apenas afastamentos superiores a 120 dias autorizariam a posse de suplentes — perdeu validade com o calendário. O que antes era resistência técnica, agora soa como manobra política.
O caso que paralisou o Legislativo
O afastamento de Saulinho da Academia (PDT), então presidente da Casa, Cleber Serrinha (MDB), Wellington Alemão (Rede) e Teilton Valim (PDT), por ordem do juiz Rodrigo Ferreira Miranda, da 2ª Vara da Fazenda Pública da Serra, mergulhou o Legislativo num vácuo institucional. Todos são investigados pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) por suposta participação em um esquema de corrupção passiva dentro da própria Câmara.
A crise se agravou diante da ausência de uma resposta ágil da Mesa Diretora. Embora o regimento interno preveja a convocação de suplentes em até três dias após a vacância, a Procuradoria Legislativa passou a interpretar que tal substituição só se justificaria após 120 dias de afastamento — uma leitura controversa, baseada em precedentes do STF que não têm aplicação direta ao caso. O resultado foi uma judicialização prolongada e o agravamento do desgaste político.
Justiça em disputa, Legislativo em espera
O ponto de inflexão ocorreu em dezembro, quando o desembargador Júlio César Costa de Oliveira, relator do caso no TJES, negou o pedido de posse imediata apresentado por três dos suplentes. A liminar manteve a situação suspensa até que o prazo defendido pela própria Câmara — os tais 120 dias — fosse ultrapassado.
Com o novo ano e a marca simbólica dos 121 dias, a justificativa se esvaiu. A Câmara, encurralada, agora convoca os suplentes não por convicção institucional, mas por conveniência jurídica. Sérgio Peixoto, suplente que não participou das ações judiciais, também será empossado.
Reflexos de uma crise mais profunda
O episódio é mais do que um tropeço burocrático. Ele revela o quanto o sistema político local ainda carece de clareza normativa, maturidade institucional e compromisso com a cidadania. Durante todo esse período, um sexto da Câmara permaneceu esvaziado — um prejuízo direto à representatividade da população serrana.
Além disso, a disputa escancarou a fragilidade dos mecanismos internos da Casa, expôs a politização de interpretações legais e evidenciou como o Judiciário pode se tornar árbitro de impasses criados, em grande parte, por omissões políticas.
O que esperar daqui pra frente
A posse dos suplentes deve encerrar formalmente esse capítulo, mas está longe de pacificar o cenário. O inquérito contra os vereadores afastados segue em curso, e seus desdobramentos ainda podem impactar a composição e a imagem da Câmara. Os suplentes, por sua vez, chegam em meio à desconfiança pública e com a pressão de demonstrar que não são apenas substitutos ocasionais, mas representantes legítimos de um eleitorado cada vez mais atento.
A crise da Câmara da Serra é mais um lembrete de que a democracia local não pode sobreviver apenas das formalidades regimentais. Ela precisa de instituições dispostas a agir com transparência, responsabilidade e respeito à sociedade que representam.